quinta-feira, 12 de abril de 2012

Contos de Fadas

Admito não ser uma profunda estudiosa em psicologia infantil, entretanto tudo parte da infância, é lá que as coisas se consolidam, então atender adulto e idoso é sim aprofundar em questões da infância. E também o objetivo do Blog é explorar novos caminhos, disseminar informações e ser um espaço de reflexão, pensando em tudo isso, este post propõe uma introdução a importância dos CONTOS DE FADAS.

Em uma conversa, um adulto me disse achar dispensável criança acreditar em CONTOS DE FADAS, como se fossem apenas perfumaria, coisas que afastam as crianças do mundo real, como se as estórias alimentassem fatos enganosos aos pequenos. Naquele momento senti certa inquietação, afinal os CONTOS DE FADAS sempre fizeram parte da minha vida, e insisto para que façam parte da vida do meu filho.

Impossível pensar em CONTOS DE FADAS, sem refletir sobre a importância da fantasia e do simbólico, que deixarei para um próximo post.

A diversidade de livros que tratam sobre o tema é grandiosa, porque fazem jus a importância de se utilizar veículos (contos) para de alguma forma acessar o inconsciente das crianças, aqui vou utilizar como referencia principal “A psicanálise dos contos de Fadas” do autor Bruno Bettelhein.

O autor escreve:

A criança. à medida que se desenvolve, deve aprender passo a
passo a se entender  melhor; com isto, torna-se mais capaz de
entender os outros, e eventualmente pode-se relacionar com eles de
forma mutuamente satisfatória e significativa.

Este trecho remete a ideia de que a criança necessita aprender a lidar com seus medos e suas angustias, mas ainda não possui os mesmos recursos internos do adulto, ficando difícil muitas vezes compreender o mundo ao seu redor de maneira racional, ou pelo menos da maneira que é mais fácil ao adulto.

Um bom exemplo disso é a morte, como cada criança entende isso. É óbvio que temos por trás as diversas convicções religiosas de cada família, mas toda criança constrói uma fantasia sobre o morrer, diante de sua capacidade de suportar aquela dor.
A maioria dos contos de fadas de maneira delicada fala da destruição e do morrer, como “Chapeuzinho Vermelho” engolida pelo Lobo Mal, assim como sua amada vovó.

Bruno cita que:

Esta é exatamente a mensagem que os contos de fada transmitem
à criança de forma múltipla: que uma luta contra dificuldades
graves na vida é inevitável, é parte intrínseca da existência humana
- mas que se a pessoa não se intimida mas se defronta de modo firme
com as opressões inesperadas e muitas vezes injustas, ela dominará
todos os obstáculos e, ao fim, emergirá vitoriosa

Penso que a essência dos contos de fadas seja a conversa de maneira sutil e inconsciente que ele permite fazer com as crianças, podendo trazer de maneira lúdica questões muito difíceis de serem abordadas.

Poderia aqui escrever paginas e paginas sobre o assunto, até porque existem milhares de contos de fadas, e cada um tem infinitas versões,mas tive que fazer uma escolha e inspirada pela preferência do meu filho, decidi discorrer sobre “Três Porquinhos”, aguçando a curiosidade de cada um que ler este post na busca interna de seu conto de fadas preferido, aprofundamento nos seus medos e compreensão de seu mundo interno, que acredito fielmente será despertado em cada um de vocês.
Em linhas gerais, o conto fala de uma mãe que sabendo ter chegado à vida “adulta” aos seus três porquinhos pede que eles sigam para a floresta e possam construir suas casas. Buscando sua própria independência.

Cada um dos três porquinhos faz sua escolha. O caçula estava com pressa de brincar, toma o caminho mais fácil e constrói uma casa de palha. O segundo também quer se divertir e para não perder muito tempo constrói uma casa de madeira. O mais velho, preocupa-se com segurança, deixa de lado o lazer, e estrutura uma casa de tijolos.

Quando chega o Lobo Mal, derruba a casa de palha e madeira, mas não a de tijolo onde se abrigam todos os 3 porquinhos.

Bruno comenta que os 2 porquinhos mais jovens querem se “livrar” logo do compromisso de construir a casa, com uma preocupação maior em sentir prazer através das brincadeiras, negando os perigos e não querendo entrar em contato com a realidade.

Apenas o porquinho mais velho é capaz de adiar seus desejos de brincar, preocupa-se com o futuro e amadurece, dando inclusive abrigo aos seus irmãos infantilizados.

Bruno cita que:

“A estória dos três porquinhos sugere uma transformação na qual muito do prazer é retido, porque agora a satisfação é buscada com verdadeiro respeito pelas exigências da realidade”.

Não tenho duvidas de que se trata de uma grande reflexão sobre crescer, assumir responsabilidade e conseguir equilibrar desejo e realidade, coisas fundamentais para a construção de adultos saudáveis.

O post não tem pretensão de convencer ninguém a respeito da importância dos CONTOS DE FADAS para o desenvolvimento emocional dos pequenos, mas se plantou em cada um que leu uma pequena duvida já estou satisfeita.

Convido inclusive minhas admiradas:

Ana Paula Nascimento – para discorrer sobre MITOS

Emiliane Colleto – para falar sobre fantasia na infância

Fernanda Machado – para escrever sobre literatura infantil

E com isto o blog ir tomando corpo e despertando diálogos.




Bibliografia:

A Psicanalise dos Contos de Fadas. Bruno Bettelhein

quarta-feira, 28 de março de 2012

Velhice

Algumas pessoas na velhice conseguem refazer sua rotina, entendem os benefícios do amadurecimento e vivem a velhices de maneira “mais tranqüila”, aceitando as transformações impostas pelo tempo. Entretanto não é o caso da maioria.

O mais comum é o idoso sentir-se só, com grande sentimento de menos valia e perdido em como viver a sua vida. Soma-se a isso a decadência financeira, pois nosso sistema de aposentadoria não beneficia um envelhecimento digno a maioria, e as mudanças físicas são sentidas como completamente ameaçadoras. O idoso vai sendo tomado por um terror da morte, um medo de não dar conta de ser finito.

E tem também uma grande parcela de pessoas que negam completamente a velhice, hoje a mídia fomenta muito isso, envelhecer jamais. Então é a senhora de 70 anos que faz plástica para parecer com 40 e acreditando estar com 40 anos. O que também caracteriza uma dificuldade de enfrentar a velhice. Muitas vezes olhar para a velhice é deparar-se com aspectos que são doloridos de serem vividos.

A maneira como cada um envelhece é um reflexo de seus aspectos mais internos, de como foi que viveu toda a sua vida, quem tem uma vida triste conseqüentemente terá uma velhice triste. Quem possui recursos internos de lidar com os problemas de maneira mais equilibrada muitas vezes conseguira terá uma velhice mais feliz.

Há cem anos atrás, na época áurea da psicanálise, Freud não chegou a estudar com profundidade o envelhecer, o que fez com que muitos acreditassem que não era possível tratar o sofrimento do velho, pois este nada mais tinha a ser trabalhado. Este conceito estava infimamente ligado a uma visão de velho decrépito.

Hoje sabemos que não é assim, os sentimentos e o sofrimento merecem total atenção, em todas as etapas da vida, seja criança, adolescente, adulto e idoso. O atendimento psicológico ao idoso visa compreender as transformações desta etapa da vida, auxiliando-o a entender essas mudanças e buscando as potencialidades e benefícios gerados na terceira idade.


Bibliografia

  1. Mercadante, Elizabeth Frolich. Envelhecimento ou longevidade. Editora Paulus, 2009
  2. Beauvoir S. Velhice e Biologia. In: A velhice. Editora Nova Fronteira

Um pouco da minha história..


Quando cheguei a tão amedrontadora época de prestar vestibular, não tinha a menor ideia do que iria estudar, durante muito tempo acreditei que a Psicologia entrou na minha vida por acaso, depois de longos anos de terapia, consegui enxergar que foi uma escolha tão profunda, que nem passou pela razão, destas coisas que chamam de “Inconsciente”.

E desde 1994, não consegui mais viver sem estudar Psicologia, foram 5 anos de graduação e desde 1999 desenvolvo trabalho em clinica.

No inicio da carreira, muito influenciada pela linha da faculdade que estudei (FMU), e com imensa admiração por dois professores (Anderson Zenidarci e Armando Colognese Jr) segui os caminhos da Psicanálise.

O atendimento com adultos sempre esteve presente, e havia um gosto por trabalhos com adolescentes, o que me fez estudar Psicoterapia Psicanalítica para Adolescentes no Instituto Pieron.

Em 2002 os ventos me levaram para uma Pós Graduação em Arte Integrativa, com isso um mundo novo se abriu, o contato com as artes, as reflexões sobre varias formas de expressar os conflitos, a paixão pelo simbólico, começaram a me transformar enquanto pessoa e psicoterapeuta.

Os atendimentos com adolescentes e orientações vocacionais já não eram os mais prazerosos, e no decorrer dos anos, sentia que faltava algo.

Em busca de dar conta desta inquietação que ano após ano crescia, cheguei ao Instituto Sedes, para um aprimoramento em Gerontologia em 2010. E tive a cada encontro mais certeza, de que meu desejo era aprofundar as questões que envolvem a velhice.

Por mais que escreva milhares de palavras, jamais serei capaz de expressar o que a gerontologia fez com minha vida, com minha postura e compreensão de Psicoterapeuta, entrar neste caminho tem sido uma riqueza.

Vou confessar, as leituras de Irvin Yalom, minha vivencia enquanto paciente de Gestalt Terapia e um mergulho nas Terapias ditas Humanistas a cada dia fazia mais sentido, com isso fui construindo outra postura, e mudando minha concepção de relação paciente-terapeuta, ou melhor cliente-terapeuta.

Este blog será de humildes pinceladas, neste percurso da Psicoterapia, trarei escritos meus, e abro espaço para meus colegas contribuírem também, encantados com a possibilidade tornar acessível a todas as pessoas coisas do universo da Psicologia, nesta busca incessante pelo aprofundamento em si mesmo.